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Expansão do mercado de cachaça atrai pessoas que não são do ramo

23/11/2014
Marcelo Bonfá, que integrou a Legião Urbana,passou a produzir cachaça. Trinta por cento da produção brasileira da bebida sai de destilarias artesanais

O Brasil produz mais de 800 milhões de litros de cachaça por ano, 30% sai de pequenos alambiques. Ensei Neto, especilaista em qualidade sensorial de bebidas e alimentos, diz que hoje o consumidor não se incomoda em pagar caro, mas o produto tem que ser especial. “O público pode ser formado não só pela característica sócio econômica, mas principalmente pela afinidade em querer beber alguma coisa que dê uma experiência muito boa”, afirma.

Carolina Oda é sommelier, profissional que ajuda restaurantes e clientes a escolher qual bebida combina melhor com cada prato. Ela explica que, atualmente, cachaças especiais também são muito usadas no preparo de coquetéis. “Uma caipirinha com uma cachaça diferente faz diferença. A gente acha que coloca açúcar, fruta, tanto faz a cachaça. Não é assim”, comenta.

O cachacier, Maurício Maia, um dos mais respeitados provadores de cachaça do Brasil, explica que pra alcançar bons preços, a bebida tem que obedecer alguns princípios. “O ponto primordial é que a cachaça jamais pode ser agressiva. Apesar da sua potência alcoólica, mais de 40% de volume alcoólico, esse álcool tem que ser suave. Ela não pode queimar”, diz.

A expansão do mercado de cachaças especiais tem atraído para o setor, gente que nem é do ramo, como Marcelo Bonfá, baterista que integrou a Legião Urbana até o fim dela, em 1996, quando morreu Renato Russo.

Bonfá ainda toca, formou uma outra banda, mas agora também é agricultor. Ele é dono de uma propriedade no município de Bocaina de Minas, no alto da Serra da Mantiqueira, no sul de Minas Gerais. Lugar repleto de belas paisagens, matas e riachos de água cristalina. A fazenda fica de frente para a Cachoeira do Paiol.

Marcelo decidiu cultivar cana para produzir cachaça. “A fazenda tem 50 hectares, dois hectares com cana, o resto é mata nativa, que eu não faço nada. Eu deixo e a gente aproveita pra preservar o entorno”, explica.

O canavial já estava plantado quando a fazenda foi comprada. Assim, como a família Weber, que o Globo Rural mostrou na primeira reportagem, Marcelo optou pelo sistema orgânico de produção.

“Vai por um caminho muito tenebroso essa questão do agrotóxico. O quanto é prejudicial pra saúde humana. Então, é incompatível com o que eu imagino que a gente está fazendo nesse planeta. Como a cana já está adaptada, está aqui há anos ela já faz parte do ambiente, então não tenho problema com praga”, afirma.

Marcelo conta que um vizinho já produzia uma boa cachaça no fundo do quintal. Foi assim que nasceu o Alambique Perfeição. “Não entendia absolutamente nada, nem de beber. Porque na verdade eu nunca bebi cachaça. Por incrível que pareça, eu queria café. Eu adoro café e eu plantei, mas o solo para o café aqui é muito úmido e não deu. Aí a cana olhando pra mim e eu olhando pra ela, ela me dizendo: tô aqui pronta, falta só um trato... E foi o que a gente fez”, conta.

Para aprender a lidar com cachaça, Marcelo foi estudar, fez alguns cursos e levou com ele o Elói Daniel, filho de um ex-funcionário da fazenda, que hoje toca a propriedade. “Há quatro anos eu nunca tinha visto um alambique, nem sabia como era. Fiquei conhecendo um alambique lá no curso. Agora minha paixão é fazer cachaça”, diz Daniel.

A safra da cana vai de julho a outubro. Do campo ela segue direto pro alambique. O processo de produção da cachaça é praticamente igual ao mostrado na primeira reportagem, no Rio Grande do Sul. O alambique de Marcelo Bonfá é pequeno e o processo de destilação bastante lento, por isso, só saem 60 litros de cachaça por dia.

Parte da cachaça vai direto para a garrafa. O restante envelhece em tonéis de carvalho por um ano. Depois é feito um blend, uma mistura das duas cachaças. Marcelo capricha na apresentação do produto.

A produção da fazenda é pequena: gira em torno de três mil garrafas por ano. Assim como a família Weber, Marcelo está de olho nesse novo mercado de cachaças especiais, que têm boa qualidade e preços altos. “Eu tenho que levar esse produto para o consumidor. E esse cara pra mim é um cara que aprecia uma bebida de qualidade. Isso não é uma bebida pra você entornar. Ela tem 40 graus alcoólicos. A nossa tem 43, 45. É pra degustar”, declara.

Pra quem não entendia nada de cachaça, Marcelo vem se saindo bem. “Eu costumo resumir na frase que um amigo meu me falou quando eu estava com essa ideia há muitos anos atrás. Eu querendo ganhar um dinheirinho, obviamente. Ele falava: olha Bonfá, seguinte: você não vai ficar rico, mas vai tirar uma onda e vai dar uma onda nos seus amigos. E está acontecendo isso desde que a gente começou”, conta.

O mercado de cachaças especiais ainda tem muito espaço pra crescer, especialmente, fora do país. Hoje o Brasil exporta menos de dois por cento do que produz.

ASSISTA:

http://g1.globo.com/economia/agronegocios/noticia/2014/11/expansao-do-mercado-de-cachaca-atrai-pessoas-que-nao-sao-do-ramo.html

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